Coluna de: Dr. Fábio Ravaglia - Ortopedia e Saúde

Uma sandália bem alta, prata, dourada ou com muito brilho, chama a atenção do público para a passista na avenida. Quem não está habituado aos saltões pergunta: como é que ela se equilibra nisto? Treina muito durante o ano e se esforça para aparecer glamorosa na passarela. Mas como aliviar o sacrifício ao qual os pés são submetidos durante o Carnaval? Mesmo quem está acostumada ao salto alto fica cansada com a ginástica de manter o ritmo nas alturas. Enumero algumas dicas para evitar problemas nos pés porque sei que nenhum médico consegue convencer as mulheres a não usar salto, principalmente em dia de festa, por haver o consenso de que a pessoa de salto alto parece mais magra e alta; emocionalmente, a mulher se sente mais atraente e “sexy”, melhorando a autoestima.
Quem dança sabe que com o salto alto transfere o peso do corpo para as pontas dos pés, contraindo as panturrilhas, as coxas e modificando o eixo do corpo ao aumentar a lordose lombar, o que consequentemente arrebita as nádegas. A mudança de distribuição do peso facilita o dançar, rodar e rebolar, porque a superfície em contato com o solo é menor. É o que ocorre com as bailarinas clássicas, que usam a ponta dos pés para os passos ficarem mais leves. Pelo mesmo motivo, em danças de salão, homens usam salto alto ou pisam ora com os calcanhares, ora com as pontas e ora só com as laterais dos pés para diminuir a superfície de atrito com o solo e facilitar o balançar.
Quem é destaque em escolas de samba ou quer aparecer com muita sensualidade nos salões precisa pensar desde já no calçado que vai usar no Carnaval. A primeira coisa é escolher um modelo confortável, adequado ao formato e ao tamanho do pé. Isto parece óbvio, mas sei de gente que na hora do desfile acabou pegando um sapato menor porque não tinha o seu número no barracão e, claro, ficou com os pés “detonados”. O ideal é optar por um calçado com plataforma ou solado alto na frente, tipo meia pata, que diminui a inclinação do pé e distribui melhor o peso do corpo ao longo do pé. Os saltos mais grossos e as tiras mais largas dão mais estabilidade aos passos. O calçado deve acomodar o pé e ficar firme. Experimente o calçado que vai usar no final do dia, quando o pé costuma inchar, ande ou ensaie com ele o tanto quanto for possível. As palmilhas de silicone, próprias para sandálias, dão algum conforto e evitam que o pé fique escorregando. O atrito pode causar bolhas, além de forçar a parte da frente da sola do pé, desenvolvendo calosidades. Sempre tome cuidado para não sofrer torções. No dia do desfile, leve outro calçado para a avenida e só coloque o salto no momento do show.
Quem exagera no uso do salto alto pode comprometer os pés e, por correlação, a postura corporal, principalmente na região da coluna. Acontece que o salto alto força a mulher a usar apenas a sola do pé, reduzindo ou eliminando a função do calcanhar durante o movimento. Com o tempo, isto provoca o encurtamento da musculatura posterior da perna e o fortalecimento em exagero dos músculos da frente. Para se equilibrar sobre o salto, as mulheres forçam a região lombar para trás, o que deixa o bumbum empinado. Esta postura acentua a curvatura desta parte da coluna e cria o risco desenvolver uma lordose.
Recomendo que se faça alongamentos antes e depois de usar salto alto, procurando movimentar bem a musculatura que fica parada quando se anda de salto. Movimente também os tornozelos em todas as direções possíveis, fazendo círculos no ar com os pés. Um exercício fácil é apoiar a ponta do pé no degrau da escada e forçar o calcanhar para baixo, permitindo que a musculatura da parte de trás da perna se estique bem.
Os foliões que não precisam de salto alto podem dar preferência a tênis ou sapatilhas bem confortáveis. Os chinelos, tão apreciados no calor do verão, deixam os pés desprotegidos demais. Depois da brincadeira, um escaldapé é sempre bom. A água quente ajuda a relaxar a musculatura e dá conforto para continuar no dia seguinte.
Acerte na escolha do sapato
Muita gente não sabe mas os pés são diferentes de pessoa para pessoa. Da mesma forma que há cabelos loiros, ruivos ou morenos, os pés também são diferentes. Há por exemplo pés longos, largos, gordos, magros, altos ou baixos. Conhecer o próprio pé e respeitá-lo é o caminho mais simples para manter a saúde dos pés, que são importantíssimos para a postura corporal. Tempos atrás, a ortopedia não dispunha dos recursos que tem hoje. Muita gente lembra do médico pedindo para pisar no pedígrafo (a grosso modo, aquela caixa de vidro com espelhos) para examinar os pés. Hoje, para verificar a maneira como se pisa existe um exame sofisticado, a baropodometria. O teste é muito simples: basta a pessoa caminhar descalça sobre um tapete de borracha. Na verdade, este tapete é um escâner que mapeia o pé e transfere o que verificou para a tela de um computador. O resultado em imagem digital pode ser impresso. De posse destas informações, um profissional classifica a pisada e recomenda o que precisa ser feito (modelo de sapato ou palmilha).
A baropodometria é uma ferramenta moderna e eficaz que ajuda a orientar sobre o calçado correto a ser usado ou a indicar palmilhas posturais, utilizadas para fazer alguma correção. Conhecida entre os esportistas como teste da pisada, a baropodometria pode ser a diferença entre vencer ou não e, até mesmo, uma forma de evitar lesões nos pés, joelhos e quadris. Os esportistas sabem o quanto é importante usar o calçado correto. Mas poucas pessoas se preocupam em fazer avaliação da pisada antes de comprar um calçado. Talvez porque não tenham conhecimento da influência que a pisada exerce sobre o corpo ou mesmo das diferenças entre os pés e as pisadas.
As diferentes pisadas
O tipo de pé determina a maneira como se caminha. Pessoas com os pés supinados (cavos) e pronados (chatos) devem estar atentas para a escolha do calçado apropriado. Os diferentes modelos de tênis ou sapatos não têm a função de corrigir o problema ortopédico, mas é fato que podem adaptar o pé para que o passo fique correto, ou seja, para amenizar as falhas na pisada.
Mas, qual a diferença entre os tipos de pés? A resposta a essa questão está no modo como a pessoa toca o solo no momento da pisada. Na pisada supinada, a pessoa confere maior peso ao lado externo do calcanhar (pés com muita cava). Na pronada, o peso do corpo está concentrado na parte lateral-interna do calcanhar. É importante lembrar que há a pisada neutra, ou seja, característica das pessoas com pés normais, que distribuem o peso do corpo uniformemente.
Para as pisadas supinadas o mais indicado são calçados macios em toda sua extensão, principalmente na parte lateral do calcanhar. Os pés pronadores devem contar com reforço na parte interna do calcanhar. É importante lembrar que as pessoas com pé chato tendem a desenvolver processos inflamatórios como tendinites.
Os pés cavos — que sofrem um impacto maior, que é absorvido pelos ossos dos pés — têm a carga transferida para o membro inferior. Na prática, isso pode gerar uma fratura por estresse, mesmo que a pessoa não sofra nenhum tipo de impacto extra. A má notícia é que esse impacto negativo pode chegar ao joelho e ocasionar artroses na região entre a coluna e a bacia.
Desconforto ou dores articulares ao caminhar, especialmente nos pés e nos joelhos, são sintomas de que algo anda errado. O ideal para tirar a prova dos nove sobre o tipo de pisada é fazer o exame de baropodometria, exame simples que mapeia a distribuição da carga na sola do pé enquanto a pessoa caminha.
Quais critérios observar para a escolha correta do sapato? Um ponto importante é a estabilidade. Solados de borracha são mais recomendados por evitar escorregões. Saltos muito finos impedem que a pisada ocorra com segurança. Ao experimentar o calçado, pense em não sacrificar os pés. Os sapatos fechados costumam acomodar melhor os pés. Os sapatos precisam ficar firmes nos pés, nem folgados nem apertados. Fivelas e cadarços ajudam a manter o sapato preso aos pés. Nem sempre o elástico é uma boa alternativa, ele prende de maneira que a circulação sanguínea fica prejudicada. Saltos de formatos quadrados são mais estáveis. Se preferir usar salto, escolha o de no máximo três centímetros. Recomendo que, na hora de comprar, experimente o calçado nos dois pés, porque os pés são diferentes. Na ponta o calçado deve ser um centímetro maior que o pé, para permitir a movimentação dos dedos. O melhor horário para comprar sapatos é no final do dia, quando os pés poderão estar mais inchados e suados. Leve as meias que costuma usar. Faça o teste, andando um pouco dentro da loja.
Fabio Ravaglia
Médico ortopedista e presidente, desde 2005, do Instituto Ortopedia & Saúde (IOS) – organização não governamental que tem a missão de difundir informações sobre saúde e prevenção a doenças, principalmente aquelas associadas à terceira idade, e que organiza o Projeto Cidadania – Caminhadas com Segurança, evento mensal que incentiva a atividade física e conta com uma feira de saúde aberta à população para a realização de exames gratuitos. O dr. Fabio Ravaglia é membro do corpo clínico externo dos hospitais Albert Einstein, Oswaldo Cruz, Sírio Libanês e Santa Catarina; membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo (cadeira 118, patrono Ernesto de Souza Campos) membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia – Sbot; e diretor-presidente da Arthros Clínica Ortopédica.
O dr. Fabio Ravaglia é graduado pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp) com residência médica no Hospital do Servidor Público Estadual, especialização em coluna vertebral pelo Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho (Santa Casa de Misericórdia de São Paulo) e mestre em cirurgia pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Foi o primeiro brasileiro aceito pelo programa do Royal College of Surgeons of England. Atuou como cirurgião ortopédico em hospitais ligados à Universidade de Bristol e fez especialização em cirurgia na Alemanha.

 
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