Coluna de: Dr. Fábio Ravaglia - Ortopedia e Saúde

No mês passado, li uma notícia que dizia que os sindicatos britânicos aprovaram moção contra o salto alto obrigatório. Achei engraçado, primeiro porque penso que seja um absurdo o salto alto ser obrigatório em uniformes de vendedoras e ou de aeromoças, justamente as profissões que exigem que as mulheres trabalhem em pé. O salto alto é bonito e elegante, mas não é adequado quando se tem determinados problemas ortopédicos. Os sindicatos afirmam que o salto alto faz mal à saúde. Não é bem assim, usado com moderação não vejo problemas. Quem sou eu para dizer que uma mulher não deva ir a um casamento de salto alto, não é?

 

Outra notícia que tomou conta da mídia foi a foto de Suria, filha dos atores Tom Cruise e Katie Holmes. A menina de apenas três anos saiu para passear usando uma sandália de salto alto, acompanhada da mãe de sandália rasteirinha. Pode? Não. Nesta idade, a criança está com o pé em formação e o uso de salto alto pode prejudicar o desenvolvimento, além de facilitar os tombos. Salto alto é condenável? Não. Mas é preciso ter limite.  Hoje há muitas opções e nada como usar o bom senso e escolher conforto e saúde e qualidade de vida e saúde.

 

A aplicação de novas tecnologias na fabricação de calçados certamente tem beneficiado os pés. Antigamente, os sapatos eram de couro e a preferência recaía sobre os solados mais duros, porque eram mais resistentes e, portanto, duráveis. As pessoas muitas vezes escolhiam os modelos mais fortes em detrimento da saúde dos pés e do conforto. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando houve a ampliação do uso da borracha e do polipropileno, os sapatos passaram por uma revolução permanente. Com os novos materiais, a indústria desenvolveu modelos mais adequados para cada tipo de pé e também para os diversos usos, como os diferentes esportes. A durabilidade continua em alta, só que existe a preferência pelo que é confortável, por isso a escolha por calçados mais leves, flexíveis e sem costuras internas.

 

Nas últimas décadas, o mercado de calçados infantis contou com modelos fabricados dentro de diferentes conceitos. A febre do uso de calçados chamados ortopédicos deu lugar aos anatômicos e, recentemente, surgiram os fisiológicos, que ainda são novidade. Percebo que, de uns tempos para cá, as pessoas parecem estar mais preocupados com a saúde e, claro, com os pés. Antes de adquirir um sapato é importante saber um pouco mais, porque o tipo de calçado que usamos influencia tanto no funcionamento quanto no formato de nossos pés.

 

Gostaria de falar sobre conceitos e tecnologias aplicados a cada tipo de calçado, mostrando diferenças básicas, em relação direta com a ortopedia, que é a minha especialidade. A intenção é ajudar na escolha do sapato mais adequado.

 

O calçado fisiológico tem o solado curvo e não plano. Com ele, a marcha é instável e não estável, por isso, os músculos são ativados e não atrofiados. Também tem efeito positivo na postura do corpo em geral. Os modelos fisiológicos costumam respeitar as normas e regras do funcionamento dos pés, uma estrutura complexa que sustenta o corpo e que é fundamental para a mobilidade do ser humano. O calçado fisiológico é aquele que não interfere no desenvolvimento natural dos pés, proporciona o contato com estímulos externos da natureza e provoca a sensação de andar descalço, além de oferecer proteção. Bastante conhecido na Europa, começa a ser fabricado no Brasil, principalmente em modelos para crianças. O calçado fisiológico é produzido com novos materiais como plásticos especiais, silicones e tecidos tecnológicos, que os fazem confortáveis e macios. Há modelos para crianças de mais de quatro anos, por exemplo, com sistema de absorção de impacto, transpiração e distribuição da pressão nos pontos de apoio do pé ou, ainda, com palmilha com tratamento antimicróbios.

 

O calçado anatômico é aquele que tem uma elevação na região do arco do pé. Esta elevação estática, que segue a própria anatomia do pé, tem o objetivo de melhorar a postura do pé. É um tipo de calçado, porém, que não leva em consideração os aspectos posturais globais do corpo e, também, não oferece estímulo à musculatura da perna.

 

O calçado ortopédico pode ser indicado em casos de deformações graves nos pés. Trata-se de um sapato rígido, feito sob medida de acordo com a receita e é o médico quem especifica as partes que devem ser reforçadas em couro ou metal para correção de anomalias e defeitos na anatomia. Portanto, não é indicado para qualquer pessoa porque pode causar a atrofia do pé e de parte dele, além de não melhorar os aspectos posturais. Tem também um efeito psicológico negativo acumulado no decorrer dos anos, que o profissional inclusive deve considerar na hora de receitá-lo. Ressalto que as botas ortopédicas não corrigem o pé plano, popularmente conhecido como pé chato; ao contrário, levam-no à atrofia. Aconselho que, se detectado qualquer problema nos pés ou mesmo em caso de dúvida, consulte um ortopedista. Somente um médico pode dizer qual é a terapia para cada caso.

 

A anatomia do pé reúne um conjunto de ossos, juntas, articulações, ligamentos, músculos e tendões, que permite uma enorme série de movimentos. O uso de calçado inadequado pode causar deformação. Originalmente, o pé humano se desenvolveu para andar descalço. Mas é claro que há séculos, por segurança e higiene, este hábito foi abandonado. Escolha o que for melhor para a saúde dos pés. O bom calçado é aquele que proporciona a sensação mais próxima de estar descalço. Também recomendo que fiquem um pouco descalços na grama ou na praia para exercitarem as partes dos pés que não se movimentam dentro de certos sapatos. Para isso, observe se o chão está livre de objetos que possam oferecer algum perigo. A biomecânica dos pés foi criada para ser usada, por isso, os modernos sapatos com conceito fisiológico estão cada vez mais presentes no mercado brasileiro, principalmente para crianças. Na Europa, a tecnologia está firmada no mercado infantil e para adultos.

 

Muita gente sente dor na sola do pé ou dor no calcanhar — resultado do uso de um calçado inadequado ou da maneira de andar incorreta. Ao entrar em contato com o solo, os pés agem no controle de postura, equilíbrio, apoio, impulsão, absorção de impactos e distribuição do peso corpóreo. O calçado pode mesmo prejudicar a saúde dos pés. O uso contínuo de um calçado inadequado pode gerar até uma fascite plantar, ou seja, uma inflamação na sola do pé.

 

 

DICAS

É importante observar para que o calçado não fique curto demais, comprimindo o pé, ou folgado demais na frente, no peito dos pés, atrás e dos lados, deixando uma folga maior do que a necessária para os dedos ou deixando o pé solto, o que pode causar bolhas ou calos. A folga ideal na frente é de no máximo um centímetro entre o dedão e a ponta (bico) do sapato, permitindo a movimentação dos dedos. Solados de borracha são mais recomendados por evitar escorregões. Saltos largos e estáveis ajudam para que a pisada ocorra com segurança. Os sapatos fechados costumam acomodar melhor os pés. Fivelas e cadarços ajudam a manter o sapato preso aos pés. Nem sempre o elástico é uma boa alternativa, uma vez que pode prejudicar a circulação sanguínea. Hoje, muitos tênis têm amortecedores que impedem que os pés e o corpo absorvam um impacto maior. Eles aliviam a carga que as articulações dos pés e dos joelhos, principalmente, recebem. São responsáveis por evitar problemas, como uma fratura por estresse ou mesmo artroses na região entre a coluna vertebral e a bacia. Flexibilidade da sola, material macio, bico amplo e salto em torno de três centímetros são características básicas de um sapato “saudável”. Para quem gosta de salto alto, convém alternar a altura do salto e evitar o uso contínuo.  Bebês não precisam de sapatos e, quando começam a andar com mais intensidade, o  calçado precisa oferecer segurança e estabilidade.

FESP FACULDADE DE ENGENHARIA SÃO PAULO

TV Bixiga News

TV BIXIGA NEWS

Entrevistas, comerciais, notícias e acontecimentos do bairro...

CLIQUE AQUI PARA ASSISTIR

Fotos Históricas

Última Edição