Coluna de: Eduardo Lãmëda - Crônicas

Uma das maiores dificuldades da vida é esquecer um ente querido que se foi, principalmente quando vai na hora que não era para ir. Pior ainda a memória não vaga da faca no ar apunhalando a pobre da Rosita e o ouvido esquerdo escutando repetidamente a ladainha: “Mata, Antão, senão te mato; mata, Antão senão te mato”. 
Não adiantou muito a paulada que sua esposa Adelaide deu em Lupércio, que ficou estendido abaixo da cerca de arame com meio corpo na sua propriedade e o restante em terreiro alheio. Gemeu quando acordou; ao erguer a cabeça, espetou no arame o galo que Adelaide fez cantar depois da meia-noite. Cambaleou para a sua terra toda. Seguro, já na varanda de sua casa, jurou vingança aos céus e ventos: “Um dia toda essa família vai virar espírito de porco”. 
Assim, Antão refletia no mato, agachado, com um galho grande de pinheiro para armar a árvore de Natal, a primeira depois de cinco anos tendo a Rosita em casa na sala a atrapalhar, fazendo orgia santa de bolas, guirlandas, pequenos pacotes e luzes em que ela metia o focinho e balançava o rabo enroscado na estrela amarela, que daria sinal a Belém de que o menino Jesus nascera.
Não queria estar passando por isso. Ainda outro dia foi olhar as latas grandes de banha para ver o que restava da florzinha do seu chiqueiro: um pedaço de rabo, uma orelha e meia, um quarto de banda de toucinho, dois dedos do pé, esquerdo ou direito? Não importa, sabia que era o pé da belezinha, linguiça da melhor carne da virgem, quase dois quilos, chouriço, apenas meio braço. Tudo isso o torturava, não queria ter matado a porquinha, era esperança dele que um dia caducassem juntos. 
A sua mulher não o deixava variar, abria falação no primeiro delírio que tanto ele gostava de provocar na lucidez de suas memórias somente para irritar Adelaide.
Antão tinha uma desconfiança na velocidade da paulada que sua cônjuge desferiu em Lupércio: “Por que não deu para matar?”. 
Antão puxou um lenço grande do bolso do paletó e chorou, como um bezerro desmamado, misturou lágrimas com meleca, jogou o galho do pé de pinheiro no chão e, com as mãos em palmas, amaldiçoou Lupércio: “Praga dos infernos! Irás vagar pelas montanhas desta terra e não acharás lugar para penar, e onde teus olhos bater, verás o focinho da Rosita espirrando sangue! 
Entrou em casa como se adentrasse em território infame e, com o galho de pinheiro em punho, varreu em vários golpes tudo que encontrou pela frente, costas e lados: cristaleira, almofadas, vasos com plantas, bolas coloridas que estavam à espera da árvore de Natal, Sagrada Família, Reis Magos, burros, carneiros... e, quando viu a foto de Rosita, berrou em alto e horrível som:
— Este ano não haverá Natal nesta casa! Não haverá Natal!
Adelaide largou de salto o bastidor de bordado, que estrela já formava, para avisar que o enviado tinha nascido, sentiu-se morta e, tremendo feito vara verde, apoiou-se no batente da despensa para que Antão, que já se adiantava em fúria, não atacasse os restos mortais da pequena porca. Trêmula da cintura para baixo, mas firme da cintura para cima, com boca de montanha amansou o gladiador fora de hora: 
— Afasta-te daqui! Já entendi que não vamos ter Natal, mas de barriga vazia não vou deixar o Ano-Novo entrar, as gostosuras da não violada ficam na lata, para nosso pandu rechear. 
Antão acalmou-se um pouco, virou as costas e partiu, não tinha coragem de cantar jingle bell com tanto terror acontecendo à sua volta.
Mano Pizzaria

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