Coluna de: Eduardo Lãmëda - Crônicas

O sábia soltou um canto dobrado no pé da Casca d'anta antes das cinco horas da manhã! Fiote, filho de Maria, abandonada por João, cobriu a cabeça para não escutar aquela cantoria - que ele bem sabia ia longe, dobrar morro, descer e subir serra - até a sábia aparecer para namorar, pois um calorzinho suave já esquenta as penas e faz bico brilhar! Ninho arrumado, dias mais longos. Maria com os seus pecados foi às sete da manhã acordar a sua cruz. De pé, Fiote desobediente berrou: “me deixa em paz, santa mãe de Deus!” Sua mãe enxugou as lágrimas no avental e murmurou : “filho ingrato ,se tivesse pai não falava assim!”  Mesmo malcriado fazia de pouco agrado as obrigações do diário .Chutou o balde, alcançou a alça antes que caísse  ao chão e correu para a beira da cisterna, para baldear água! Apoiou a barriga nos tijolos descascados do para-peito da fonte. Jogou uma pedra para ouvir o “tchibum”, e nada... surda a água? Pegou um cascalho e um barulho seco tilintou na parede do reservatório da vida na terra, sem ela não há ser que respire! Até o Cordeiro Imolado na cruz pediu água e deram a ele vinagre... gritou,suspirou e morreu. E depois ressuscitou! 
Assim Fiote pensava e a cabeça tonteava e antes que caísse no buraco, foi pelo cós da calça segurado pelo vizinho do poço que estava em guarita provisória-autorizado pela sua mãe, depois que a ventania derrubou sua choupana- esfregou a sua cara no musgo do círculo molhado, não deixando Fiote espernear abismo adentro. Sebastião impôs com garganta grossa: “quer morrer Fiote de cruz credo?” Não, Tião, só quero ver se a fonte secou, a água não respondeu às pedras que joguei! Se quiser saber a verdade tem de ir ao fundo, mas em segurança! A corda, do calibre de um punho fechado, enroscava a cintura dos dois. Frondoso tronco não balançou e foi dando corda às mãos do grato senhor, até ouvir voz fraca: “Chega, cheguei ao fundo! Pisar o lodo, a terra úmida e pastosa fazendo trânsito nos dedos, a palma do pé amassando, espremendo minhocas, folhas, casca de frutas, rodas de carrinho de boi, brinquedo sumido, achado agora no alagado do poço. Quanta coisa jogamos ou deixamos cair, ficando no escuro, fora do alcance de nossos olhos e agora embaralhados no calcanhar, no mindinho, no dedão. Pisava e refletia, Fiote olhava e não via onde se enfiou água. Apalpou a parede do poço: Nossa, está seca! Resolveu encostar o ouvido :hummm, que silêncio! Deu um tapa na orelha para tirar um cisco, quando Sebastião, de vigília na boca do investigado gritou: Olha se tem uma gota d’água. Se tiver é o caminho da fonte que está entupido!  Viu um tijolo trincado, cavou a fenda com o dedo indicador e uma massa amarela, rala e pouco úmida acumulou por debaixo da unha: pediu que subisse a corda e apoiando as pernas dobradas que nem sapo fora d'água, tendo a ajuda de Tião chegou a borda, e antes que mostrasse o dedo e seu vizinho investigasse a unha e comprovasse, tem água, sua mãe apareceu seca e brava: que marafunda é essa? Fiote, todo cheio de lama, amarrado nessa corda, o dedo em pé! E você Tião? O que faz nesse enrosco? Muitas vezes explicar as coisas complica mais a situação. 
Em silêncio de corpos presentes, Maria viu que não tinha resposta virou  as costas para os dois, fez o sinal da cruz: é melhor eu ir catar feijão pro almoço E assim foi fazer, arrumando com as pontas dos dedos os grampos no cabelo para não ficarem avoados, porque os pensamentos eram furacão sem controle, ventania de besteiras, que ia ver se espantava tirando as sujeiras dos bagos de feijão preto, que pensava em preparar com lingüiça, paio, hum....que gostosura. Maria cerrou uma banda da janela da cozinha, sentou-se, pegou a lata com feijão, despejou um tanto na mesa,e murmurou: tomara que Fiote e Tião achem o fio d'água . Sol quente, enxada nas costas, caminho de formiga, trilha das lavadeiras, pata de vaca, esterco de cavalo, pé das cabras ,usa o facão para aparar a aroeira, enxuga o suor, Tião espera Fiote, ele chega, olha para o pé de congonha e aponta: olha lá, que farra é aquela; tiziu, canarinho, sabiá, passaro preto, anu, andorinha e até beija-flor subindo e descendo, penas bravas para cima e pra baixo e pareciam molhados, vamos lá ver isso? Três moleques brincando de pique com as caras coloridas com urucum passaram por eles dando risadas na direção da cachoeira do cala boca, tirando dos bolsos das bermudas molhadas cascas de jatobá e sorrateiramente ofereciam: - quer?quer? Vai pegar! E gargalhavam. Criança ri a toa, Fiote falou .Tião olhou para cima e acentuou:----eles sabem onde está o céu! 
Andaram, andaram bastante e perceberam flores, frutos, cheiro de mato, ninhos de João de Barro, os engenheiros da natureza preparando a casa pro casório, coelho correndo pra toca com capim na boca, cobra rastejando, formigas com carga máxima de transporte, tomador de conta de gado assobiando para evitar desvio, tudo se mexendo, o vento, as folhas, os arbustos do cerrado, e lá na frente uma cava pequena entre as pedras e água, um bico d”água. Molharam a testa, a nuca, abriram a cava com a ponta da enxada e afirmaram:----vamos tirar mais um pouco de pedras, arrancar esses galhos e mover a terra argilosa que impede que água corra  pra trás e chegue no nosso poço. Fiote ajudou e em um quarto de hora a maior parte da corrente d”água foi invertida. Um barulho de redemoinho sufocado pelo volume da vida aquietou a cabeça de Maria ao escutar o  poço roncar em gordo volume transbordando pelos canteiros de couve, alface, beterraba, cebola, batata, quiabo, jiló. A dona da casa abriu a outra banda da janela para espiar. Tirou os grampos do cabelo, jogou o avental no barro, apoiou o cotovelo no beiral da janela,e berrou: corram ,corram, a primavera chegou!
 
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