Coluna de: Eduardo Lãmëda - Crônicas

-Cadê a água que tava aqui? O boi bebeu, cadê o boi? Foi pro mato, cadê o mato? O fogo queimou Cadê o fogo? A água apagou, cadê a água? O boi bebeu, cadê o boi? Assim Salvinho se divertia na poça d'água da enxurrada da tarde daquele janeiro! Sapateava, e repetia sem parar cadê a água…e a fala virava círculo, com o pé dava a volta, espirrando água pra todo lado, cantava de novo a cantilena. Quem passava por ele o condenava a cama…Vai pegar um resfriado, é aquele atentado do Vinho ai, ai, isso pode até virar pneumonia. 
Estar naquela ilha que transbordava líquido certo para os bueiros, alegrava tanto o seu coração, que mesmo que ficasse com as pernas riscadas com as marcas da vara de marmelo, ou a tosse estremecesse todo o seu corpo a noite, não ligava muito, chá de limão e mel, suadeira que derretia até os ossos, delírios  e gargalhadas, e na manhã seguinte lucidez, céu azul, sol, banana, manga, laranja, e vara de pescar no ombro! 
E irmão perguntando…tudo bem, Vivinho? Vamos pegar lambari? As minhocas se enroscavam umas nas outras na lata de massa de tomate com as bordas marteladas para não cortar os dedos feito de espetos para trançar, a isca melecando o anzol e as pontas das unhas tal como que tocando uma sinfonia brava, encerrava a obra jogando na água, as bailarinas retorcidas, afundando levemente e num vai e vem dançava a linha de nylon, orientando a pescaria numa caça cega, que em silêncio aguardava os sinais das fisgadas. Para onde vai essa água toda, Tunin? -entorna no mar, não sabe não?  Como ela fica salgada? –na mistura das duas, e verde?  
Tunin firmou a vara de pescar no barranco, colocou a mão na testa de Salvinho: -deixa eu ver se você está com febre! Que perguntas mais bestas, não sou o criador do mundo não! Enquanto corria essa prosa de beira de rio, o sol vinha avançando e com ele a inquietude do melro, a barulheira do tucano, e as línguas soltas das maritacas, que junto com o canto dos canarinhos, e do outro lado da margem o inhambu pareciam irritar o periquito que não parava de gritar. 
Anastácio descia de barco rumo a Porteira De Dentro; alertou os pescadores: vocês não vão pegar peixe nenhum ai não, com essas árvores cheias de frutas esses passarinhos fazem muito barulho, saiam daí, sigam a trilha do mato cortado, saiam da sombra vão para o céu aberto, onde a água é morna, peixe fica assanhado, nada mais perto da margem, ai onde vocês estão é como dar banho em minhocas.
 Anastácio conhecia cada gota do Rio Das Mortes, foi parido as margens, lavado nas encostas, afastado para longe no período das enchentes, mergulhado em batismo ao descer das águas, alimentado com peixe de escamas ou de couro, largado nas mãos das lavandeiras que ensaboavam sua boca com sabão do reino, para limpar as bobagens faladas e até pensadas. 
Tunin conhecia essa estória. Verdade? Verdade? Vivinho gritava com a vara já içada da água! O que é verdade? O que pensei ou o que Anastácio falou? Num sei, Vivinho, mas vamos sair daqui. Um corpo grande, e outro pequeno, dois irmãos, folhas, galhos, espinhos, buracos, uma espiada para ver se estava no caminho certo, seguindo o barulho das águas para não se perderem, a frente um clarão, o rio dobrado, enorme! –coloca o chapéu de palha, Vivinho o sol tá de fazer estourar mamonas! Imagina seu coco, seus miolos? Avistaram um pequeno monte no meio do largo rio. 
Vamos lá? Voando, Vivinho? Seu Anastácio nos leva lá, pede pra ele! Rema, assobia, rema assobia, sobe ai meninos, querem ir pescar no monte alto? Levo vocês lá! Cada mergulho da isca não demorava muito e subia pulando preso no anzol: lambari, mandi, piau e até cascão! Com a fieira de peixes sem nó e já grande, com alegria se olharam: vamos embora? Como? Eu nado neste fundo não Tunin! Eu vou descer, para ver até onde vai dar pé, se eu não afundar pula no meu pescoço, esse monte quase esbarra no barranco do lado de lá, olha depois tem umas pedras lá, você sobe, corta o cipó, joga pra mim pulo ao seu encontro. Os peixes na bacia de alumínio para sua irmã limpar: -detesto limpar peixe! Segura essa lenha direito menino! Com o machado parado no ar seu pai dava essa ordem, com um olho e meio aberto, descia o machado na lenha, a morte passava perto, os braços de Vivinho  tremiam, pensava no peixe frito, temperado com alho e sal e mergulhado no fubá, um crocante!, ficava corajoso e quando olhava com a boca salivada, via um monte de lenha rachada, seu pai pediu:----fala com o Tunin para te ajudar a colocar pra dentro, para sua irmã acender o fogão a lenha, fazer a janta, e fritar os peixes, que já, já, vai chover muito, lá pelos lados  de Emboabas já está escurecendo!    
O banquete exposto, mandi com a boca aberta, lambari com o rabo queimado, piau com as escamas escondidas no fubá, e cascudo com os olhos arregalados. Um escuro, uma ventania a tarde, uma enxurrada antes das seis, angu nos dentes, irmãos e irmãs, pai, e a mãe do quarto: -graças a DEUS! Um amém grande, outro pequeno, baixo ou alto, segurando os pratos todos agradecidos. Um silêncio quando todos viram cruzar o céu contornando a serra de São José um arco-íris, com as sete cores esparramadas no horizonte que clareava, a mãe de Salvinho gritou: ficaram bobos nunca virão um arco-íris? Me dá comida, não posso levantar, minhas pernas não mexem, é VERÃO!
 
Mano Pizzaria

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